Quem se lembra da Pampa e da Belina 4×4? Essa perua e essa picape foram lançadas no segundo semestre de 1984, para a linha 1985, por um grande fabricante norte-americano instalado no Brasil. Aparentemente, uma ótima versão, principalmente para os desbravadores de nossas estradas sem asfalto e no meio do nada. Na picape, podia-se transportar carga, e na perua, a família. Na teoria, excelente, ainda mais pelo fato de o sistema permitir ativação e desativação, de acordo com as necessidades do momento.
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Mas, para que esses modelos fossem um sucesso, era preciso que eles funcionassem bem. E é aí que mora o perigo. Como a tal marca norte-americana não queria investir muito em engenharia, desenvolveu um sistema de tração 4×4 bem simples. Eu diria até primitivo, arcaico. Como originariamente perua e picape já eram oferecidas no Brasil em versões 4×2, com tração dianteira convencional, trataram de simplesmente criar, na caixa de câmbio, uma saída de torque, ou “tomada”. Nela, era ligado um eixo cardã, que levava a força até o eixo traseiro, onde havia um diferencial.
Construtivamente simples e barato, sem dúvidas. Mas, que tinha um grande problema: se você pensar que, em uma curva, as rodas dianteiras percorrem uma distância diferente das traseiras, até por conta do esterçamento, isso era um problema para a perua e picape 4×4. Afinal, com esse sistema tão simples, havia o arrastamento das duas rodas traseiras.
Belina 4×4 prometia aventuras que a Ford só cumpriria com o EcoSport 4×4 duas décadas depois
A solução para isso estaria na adoção de um diferencial central, que compensaria a diferença de rotação entre os dois eixos. Mesmo com as rodas da frente esterçadas, esse diferencial central compensaria o “desalinho” do conjunto, trazendo harmonia na rodagem dos carros.
Só que a engenharia da tal marca optou por colocar, no manual do proprietário, que, para acionar o sistema, as rodas precisariam estar alinhadas e o volante não poderia ser girado. Sob pena de um grande esforço da transmissão e desgaste acentuado dos pneus. Ou seja: você só engataria o sistema quando chegasse na beira de um atoleiro, ou quando surgisse uma grande rampa enlameada, desde que em linha reta. Com curva? Complicava.
A tração 4×4 nesses carros era ativada por uma alavanca menor que a do câmbio, e ambas dividiam espaço no console central. E, para entrar em ação (para ser desativado, também), o veículo precisaria estar completamente parado, sem movimento, nem que fosse em linha reta. Ainda havia outra limitação séria: com ele ativado, o carro não poderia passar de 60 km/h, sob pena de danos no conjunto. Basicamente, só funcionava durante o trecho de piso ruim, seja com lama, areia ou outra coisa escorregadia. Logo após atravessar o “apuro”, era praticamente obrigatória a desativação.
Acionamento do sistema 4×4 exigia que o veículo ficasse totalmente imóvel
Para completar, os modelos, tanto picape quanto perua, vinham equipados com pneus cidade/campo, mais conhecidos como “lameiros”. Apesar de melhorarem a condução do carro no fora-de-estrada, faziam mais barulho no asfalto e tinham maior desgaste.
As propagandas da época tratavam a perua como um veículo de aventura para a família, ideal para “sítios em dia de chuva, praias desertas, areião, barro e ladeiras escorregadias”. A picape já era considerada quase como uma ferramenta de trabalho, para carregar carga nas “rampas difíceis, terrenos arenosos, lama, pântano, pasto e mato”. Apesar de, obviamente, não constar nas tais peças publicitárias, essas situações eram encaradas pelos modelos desde que não houvesse curvas, nem velocidades maiores que 60 km/h. Um sistema bem limitado.
A perua durou pouco: ficou em produção por pouco mais de 1 ano e meio, pois apresentou graves problemas estruturais na adoção do sistema de tração total. Na época, eu estava na Revista Quatro Rodas, e a publicação havia comprado um modelo desses para seu teste de longa duração.
Foram tantos problemas, inclusive trincas estruturais na carroceria (detectadas apenas na desmontagem final do teste), que a fabricante pediu o carro para investigações após a publicação dos resultados da prova. Além disso, dos 50 mil km do teste, quase 30 foram percorridos com o sistema desativado: toda vez que era necessário o uso do 4×4 na unidade da revista, ele quebrava.
Se a Ford tivesse investido melhor no sistema 4×4, ela poderia ter feito história com a dupla Belina e Pampa
Na época, a marca achou por bem comprar o carro em questão da Editora Abril, dona da Quatro Rodas, tudo para que ele não trafegasse mais, por questões de segurança. Coincidência ou não, alguns meses depois era oficializado seu fim de linha. A picape, por sua vez, servia às necessidades de sitiantes e fazendeiros, por isso durou mais: até meados dos anos 90, saindo de linha junto das outras versões 4×2 do modelo.
Se a proposta era boa, o espaço no mercado era grande, porque é, então, que não fizeram uma tração 4×4 como deveria ser feita, com diferencial central? É difícil explicar a solução no estilo de “gambiarra” em carros que tinham tudo para fazer sucesso. Perua e picape tinham porte quase médio, com conforto e robustez geral, por isso serviriam bem para famílias nos rincões do país. Se não tivessem economizado no projeto, talvez criassem uma categoria de sucesso no mercado brasileiro. Por que não?
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Mas, para que esses modelos fossem um sucesso, era preciso que eles funcionassem bem. E é aí que mora o perigo. Como a tal marca norte-americana não queria investir muito em engenharia, desenvolveu um sistema de tração 4×4 bem simples. Eu diria até primitivo, arcaico. Como originariamente perua e picape já eram oferecidas no Brasil em versões 4×2, com tração dianteira convencional, trataram de simplesmente criar, na caixa de câmbio, uma saída de torque, ou “tomada”. Nela, era ligado um eixo cardã, que levava a força até o eixo traseiro, onde havia um diferencial.
Belina 4×4 deveria ter diferencial central, mas não
Construtivamente simples e barato, sem dúvidas. Mas, que tinha um grande problema: se você pensar que, em uma curva, as rodas dianteiras percorrem uma distância diferente das traseiras, até por conta do esterçamento, isso era um problema para a perua e picape 4×4. Afinal, com esse sistema tão simples, havia o arrastamento das duas rodas traseiras.
Belina 4×4 prometia aventuras que a Ford só cumpriria com o EcoSport 4×4 duas décadas depois
A solução para isso estaria na adoção de um diferencial central, que compensaria a diferença de rotação entre os dois eixos. Mesmo com as rodas da frente esterçadas, esse diferencial central compensaria o “desalinho” do conjunto, trazendo harmonia na rodagem dos carros.
Só que a engenharia da tal marca optou por colocar, no manual do proprietário, que, para acionar o sistema, as rodas precisariam estar alinhadas e o volante não poderia ser girado. Sob pena de um grande esforço da transmissão e desgaste acentuado dos pneus. Ou seja: você só engataria o sistema quando chegasse na beira de um atoleiro, ou quando surgisse uma grande rampa enlameada, desde que em linha reta. Com curva? Complicava.
A tração 4×4 nesses carros era ativada por uma alavanca menor que a do câmbio, e ambas dividiam espaço no console central. E, para entrar em ação (para ser desativado, também), o veículo precisaria estar completamente parado, sem movimento, nem que fosse em linha reta. Ainda havia outra limitação séria: com ele ativado, o carro não poderia passar de 60 km/h, sob pena de danos no conjunto. Basicamente, só funcionava durante o trecho de piso ruim, seja com lama, areia ou outra coisa escorregadia. Logo após atravessar o “apuro”, era praticamente obrigatória a desativação.
Acionamento do sistema 4×4 exigia que o veículo ficasse totalmente imóvel
Para completar, os modelos, tanto picape quanto perua, vinham equipados com pneus cidade/campo, mais conhecidos como “lameiros”. Apesar de melhorarem a condução do carro no fora-de-estrada, faziam mais barulho no asfalto e tinham maior desgaste.
As propagandas da época tratavam a perua como um veículo de aventura para a família, ideal para “sítios em dia de chuva, praias desertas, areião, barro e ladeiras escorregadias”. A picape já era considerada quase como uma ferramenta de trabalho, para carregar carga nas “rampas difíceis, terrenos arenosos, lama, pântano, pasto e mato”. Apesar de, obviamente, não constar nas tais peças publicitárias, essas situações eram encaradas pelos modelos desde que não houvesse curvas, nem velocidades maiores que 60 km/h. Um sistema bem limitado.
Pampa 4×4 durou mais tempo no mercado
A perua durou pouco: ficou em produção por pouco mais de 1 ano e meio, pois apresentou graves problemas estruturais na adoção do sistema de tração total. Na época, eu estava na Revista Quatro Rodas, e a publicação havia comprado um modelo desses para seu teste de longa duração.
Foram tantos problemas, inclusive trincas estruturais na carroceria (detectadas apenas na desmontagem final do teste), que a fabricante pediu o carro para investigações após a publicação dos resultados da prova. Além disso, dos 50 mil km do teste, quase 30 foram percorridos com o sistema desativado: toda vez que era necessário o uso do 4×4 na unidade da revista, ele quebrava.
Se a Ford tivesse investido melhor no sistema 4×4, ela poderia ter feito história com a dupla Belina e Pampa
Na época, a marca achou por bem comprar o carro em questão da Editora Abril, dona da Quatro Rodas, tudo para que ele não trafegasse mais, por questões de segurança. Coincidência ou não, alguns meses depois era oficializado seu fim de linha. A picape, por sua vez, servia às necessidades de sitiantes e fazendeiros, por isso durou mais: até meados dos anos 90, saindo de linha junto das outras versões 4×2 do modelo.
Se a proposta era boa, o espaço no mercado era grande, porque é, então, que não fizeram uma tração 4×4 como deveria ser feita, com diferencial central? É difícil explicar a solução no estilo de “gambiarra” em carros que tinham tudo para fazer sucesso. Perua e picape tinham porte quase médio, com conforto e robustez geral, por isso serviriam bem para famílias nos rincões do país. Se não tivessem economizado no projeto, talvez criassem uma categoria de sucesso no mercado brasileiro. Por que não?
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