Nos primórdios da nossa indústria automotiva, em meados dos anos 1950, os carros produzidos por aqui eram bem primitivos e as fabricantes iniciavam sua longa caminhada de desenvolvimento. Uma indústria automotiva de origem norte-americana, que começou a produzir por aqui até mesmo modelos de projeto francês, iniciou também, em 1958, a fabricação do que hoje seria um SUV, mas na época era tratado como “peruona”.
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Era um carro capaz de trafegar por estradas esburacadas e sem asfalto, e que possuía até mesmo a opção da tração nas quatro rodas com reduzida. Ao mesmo tempo, tinha espaço para seis pessoas e enorme porta-malas, conseguindo níveis aceitáveis de conforto e desempenho. A exata descrição do que hoje chamamos de SUV, só que de meados dos anos 1950. Esse tal modelo era do pós-guerra, do final dos anos 1940, e tinha exatamente esse objetivo: levar pessoas e carga em estradas enlameadas e malcuidadas. Logo a “peruona” estava no mercado brasileiro, ainda importada, até que começou a ser feita aqui em 1958.
Primeira leva da Rural tinha frente semelhante ao eterno Jipe Willys
Na realidade, era uma família, composta de um utilitário menor (uma espécie de jipe), a tal perua (na época chamada de “perua utilitária”) e, a partir de 1960, sua versão picape. Os três serviram muito ao Brasil precário da época, mas nem tudo eram maravilhas. Pelo contrário! Os projetos norte-americanos tinham muitas e boas mancadas, que perduraram no mercado nacional por anos a fio.
Uma característica dessa família de veículos era de seu motor único, comum a toda a linha: um seis cilindros em linha, todo em ferro fundido, chamado de Hurricane (“furacão” em inglês), com a característica principal da válvula de admissão no cabeçote e a de escapamento no bloco. Essa construção acabava causando alguns problemas de superaquecimento, já que os gases quentes do escapamento circulavam por dentro do bloco antes de irem para o coletor. Esse não era o único erro de projeto: o coletor de escape ficava numa parte bem baixa do motor.
Além do Jipe e do “SUV”, a família ainda composta por uma picape
Quando o seis-em-linha estava no cofre da peruona, o tal coletor ficava bem próximo ao cilindro-mestre do freio. Como sabemos, o fluído de freio tem como uma de suas bases o álcool que, diante do calor excessivo gerado pelo coletor, evaporava com o passar dos dias. O motorista precisava, a cada 10 dias, pelo menos, completar o nível do fluído de freio, que “desaparecia” rapidamente. Aqueles proprietários que não se atentassem a esse pequeno, mas enorme detalhe, corriam muito risco de ficarem sem freio por falta de fluído no sistema!
Isso acontecia com relativa frequência, tanto no jipe, quanto na perua e na picape, já que os três eram semelhantes na construção. Vocês já imaginaram um carro que, a cada 10 ou 15 dias, tinha todo o seu fluído de freio evaporado pelo calor do próprio motor? Pois essa linha de modelos tinha esse defeito, que lá no final dos anos 1950 e início dos anos 1960, poderia ser classificado como “característica do produto”. Mas, era uma falha extremamente grave, afinal poderia causar acidentes, literalmente.
Como esses carros, em sua grande maioria, trafegavam por fazendas, sítios, interiores, sempre longe da cidade, a manutenção era precária, ou sequer existia. Nesses casos, era comum encontrar os tais modelos rodando sem freio algum.
Eu mesmo, lá por meados dos anos 1960, estive com a minha família na região de Foz do Iguaçu (PR), lá perto da fronteira com o Paraguai. Meu cunhado trabalhava por lá com uma peruona dessas, e, claro, ela não tinha freio. Ele reclamava que precisava andar com fluído e sempre precisava ficar repondo o líquido que evaporava. Para reduzir a velocidade, que era sempre baixa naquelas regiões (no máximo 50 km/h, por conta das péssimas estradas), o câmbio manual tinha suas marchas reduzidas. Na hora de parar de vez, o único jeito era raspar as rodas num barranco até que o atrito desacelerasse o carro por completo.
Ter um frasco de fluido de freio era tão essencial como estepe e macaco
O interessante é que, na época, ninguém criticava o carro por isso: esse absurdo do fluído de freios evaporar era tratado como uma simples característica dos modelos. Bizarro, ainda mais quando lembramos que a solução para aquele problema não era nem um pouco difícil: bastava que o fabricante instalasse, entre o coletor de escapamento e o cilindro-mestre, um defletor de alumínio com interior revestido em amianto. Ele trataria de absorver o calor gerado pelo funcionamento do coletor, evitando que chegasse ao cilindro-mestre, evaporando o fluído de freio.
Mas isso não parecia ser um problema para a fabricante, que, assim como outras, ainda estava aprendendo a fazer carros em um país que engatinhava com sua industrialização. O público comprava, o carro servia, e estava tudo bem, dentro do possível. Já imaginaram um problema desses nos dias de hoje? Seria caso de matérias televisivas em horário nobre, processos judiciais milionários, órgãos governamentais investigando, daí pra pior. Na época? Te recomendavam a levar uma lata de fluído de freio no carro, e nunca esquecer de abastecer o reservatório. Coisas dos primórdios da nossa indústria automotiva…
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Era um carro capaz de trafegar por estradas esburacadas e sem asfalto, e que possuía até mesmo a opção da tração nas quatro rodas com reduzida. Ao mesmo tempo, tinha espaço para seis pessoas e enorme porta-malas, conseguindo níveis aceitáveis de conforto e desempenho. A exata descrição do que hoje chamamos de SUV, só que de meados dos anos 1950. Esse tal modelo era do pós-guerra, do final dos anos 1940, e tinha exatamente esse objetivo: levar pessoas e carga em estradas enlameadas e malcuidadas. Logo a “peruona” estava no mercado brasileiro, ainda importada, até que começou a ser feita aqui em 1958.
Primeira leva da Rural tinha frente semelhante ao eterno Jipe Willys
Na realidade, era uma família, composta de um utilitário menor (uma espécie de jipe), a tal perua (na época chamada de “perua utilitária”) e, a partir de 1960, sua versão picape. Os três serviram muito ao Brasil precário da época, mas nem tudo eram maravilhas. Pelo contrário! Os projetos norte-americanos tinham muitas e boas mancadas, que perduraram no mercado nacional por anos a fio.
Motor da Rural prejudicava os freios
Uma característica dessa família de veículos era de seu motor único, comum a toda a linha: um seis cilindros em linha, todo em ferro fundido, chamado de Hurricane (“furacão” em inglês), com a característica principal da válvula de admissão no cabeçote e a de escapamento no bloco. Essa construção acabava causando alguns problemas de superaquecimento, já que os gases quentes do escapamento circulavam por dentro do bloco antes de irem para o coletor. Esse não era o único erro de projeto: o coletor de escape ficava numa parte bem baixa do motor.
Além do Jipe e do “SUV”, a família ainda composta por uma picape
Quando o seis-em-linha estava no cofre da peruona, o tal coletor ficava bem próximo ao cilindro-mestre do freio. Como sabemos, o fluído de freio tem como uma de suas bases o álcool que, diante do calor excessivo gerado pelo coletor, evaporava com o passar dos dias. O motorista precisava, a cada 10 dias, pelo menos, completar o nível do fluído de freio, que “desaparecia” rapidamente. Aqueles proprietários que não se atentassem a esse pequeno, mas enorme detalhe, corriam muito risco de ficarem sem freio por falta de fluído no sistema!
Isso acontecia com relativa frequência, tanto no jipe, quanto na perua e na picape, já que os três eram semelhantes na construção. Vocês já imaginaram um carro que, a cada 10 ou 15 dias, tinha todo o seu fluído de freio evaporado pelo calor do próprio motor? Pois essa linha de modelos tinha esse defeito, que lá no final dos anos 1950 e início dos anos 1960, poderia ser classificado como “característica do produto”. Mas, era uma falha extremamente grave, afinal poderia causar acidentes, literalmente.
Como esses carros, em sua grande maioria, trafegavam por fazendas, sítios, interiores, sempre longe da cidade, a manutenção era precária, ou sequer existia. Nesses casos, era comum encontrar os tais modelos rodando sem freio algum.
Eu e a Rural sem freio
Eu mesmo, lá por meados dos anos 1960, estive com a minha família na região de Foz do Iguaçu (PR), lá perto da fronteira com o Paraguai. Meu cunhado trabalhava por lá com uma peruona dessas, e, claro, ela não tinha freio. Ele reclamava que precisava andar com fluído e sempre precisava ficar repondo o líquido que evaporava. Para reduzir a velocidade, que era sempre baixa naquelas regiões (no máximo 50 km/h, por conta das péssimas estradas), o câmbio manual tinha suas marchas reduzidas. Na hora de parar de vez, o único jeito era raspar as rodas num barranco até que o atrito desacelerasse o carro por completo.
Ter um frasco de fluido de freio era tão essencial como estepe e macaco
O interessante é que, na época, ninguém criticava o carro por isso: esse absurdo do fluído de freios evaporar era tratado como uma simples característica dos modelos. Bizarro, ainda mais quando lembramos que a solução para aquele problema não era nem um pouco difícil: bastava que o fabricante instalasse, entre o coletor de escapamento e o cilindro-mestre, um defletor de alumínio com interior revestido em amianto. Ele trataria de absorver o calor gerado pelo funcionamento do coletor, evitando que chegasse ao cilindro-mestre, evaporando o fluído de freio.
Mas isso não parecia ser um problema para a fabricante, que, assim como outras, ainda estava aprendendo a fazer carros em um país que engatinhava com sua industrialização. O público comprava, o carro servia, e estava tudo bem, dentro do possível. Já imaginaram um problema desses nos dias de hoje? Seria caso de matérias televisivas em horário nobre, processos judiciais milionários, órgãos governamentais investigando, daí pra pior. Na época? Te recomendavam a levar uma lata de fluído de freio no carro, e nunca esquecer de abastecer o reservatório. Coisas dos primórdios da nossa indústria automotiva…
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