Notícia Como será o novo carro popular que promete salvar o mercado?

A discussão sobre o retorno do carro popular no Brasil está acalorada. O consumidor não consegue bancar os preços atuais dos automóveis. A indústria tirou o pé na produção para não acumular produtos encalhados nos estoques. Ao mesmo tempo, os concessionários reclamam da falta de clientes. E por fim, o governo depende da indústria para alavancar o consumo e não deixar que a economia se estagne. Mas como seria o novo popular?

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Ainda não há nada definido. Tudo está na esfera da imaginação e rascunhos em guardanapos. Indústria, governo e varejo não chegaram a um consenso. Mas o que se sabe é que o governo teria que tirar o pé na carga tributária e que fabricantes iriam remover tudo que não fosse essencial em seus automóveis.

Nas redes sociais, usuários mais afoitos bradam que a culpa da alta dos preços se dá pelo excesso de itens de segurança. Há quem diga que o carro não deveria ter airbag, freio ABS ou controles de tração ou estabilidade. Tem até youtuber que levanta essa bandeira, mas se nega a rodar em carro com menos de seis airbags.

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No início dos anos 1990, o Mille foi o precursor dos carros populares (Foto: Fiat | Divulgação)

No entanto, conversamos com um executivo de um dos maiores grupos automotivos do mundo. Ele disse que não há como retirar itens de segurança “conquistados”.

“Não há como remover esses equipamentos. Fornecedores que entregam freios ABS, módulos elétricos e bolsas infláveis também estão de olho nessa história. O que poderíamos fazer é retirar o que não é obrigatório, como ar-condicionado, vidros elétricos, multimídia, mas jamais nos itens de segurança obrigatórios”, afirma.

De volta à vida​


Mas remover itens “supérfluos” é uma realidade para marcas que oferecem compactos no mercado como: Chevrolet, Citroën, Fiat, Peugeot, Renault, Toyota e Volkswagen. Outras marcas que quiserem surfar nessa onda teriam que desenvolver produtos ou reativar modelos fora de linha.

Fabricantes desconversam sobre o retorno de modelos fora de linha e afirmam que não comentam sobre projetos futuros. Na boca miúda, fontes também são bastante reservadas em fazer qualquer tipo de previsão.

Mas fato é que carros voltarem ao mercado após a aposentadoria não é novidade. No ano passado, a AutoVAZ voltou a produzir o Lada Granta. Em 1993, a Volkswagen trouxe de volta à vida o Fusca, depois de o então presidente da república, Itamar Franco, ter manifestado que o retorno do carrinho seria bom para o mercado.

Onix Joy colombiano​


Nesse caso, quem tirou modelos de circulação poderia ressuscitar falecidos, como Chevrolet Joy e Nissan March. Dos dois, o Joy poderia ser a opção mais factível, uma vez que o modelo teve sua produção transferida para a planta da GM em Bogotá, na Colômbia.

chevrolet onix joy 2020

Feito na Colômbia, Onix Joy poderia ser uma opção para o carro popular da GM (Foto: GM | Divulgação)

E como o país de Gabriel García Márques é membro associado do Mercosul, a vinda do Joy não seria um complicador. Mas a General Motors acredita que a solução não é o conteúdo do carro em si ou mesmo qual modelo seria depenado para se tornar um popular. Para ela nem é preciso um carro popular, mas uma revisão da carga tributária que recai sobre o automóvel.

“A GM entende que é necessária uma revisão da carga tributária relacionada ao automóvel, que chega a ultrapassar 50% do seu preço final, muito acima do percentual aplicado em outros países. A redução de impostos é a solução mais eficaz para a oferta de veículos mais acessíveis e tecnológicos, em linha com a evolução das necessidades do consumidor brasileiro em relação a segurança, conforto, conectividade e eficiência energética – tendo em vista ainda os principais desafios da sociedade frente as mudanças climáticas. A redução de impostos beneficia a todos: consumidores, fabricantes, fornecedores e o próprio governo, já que fomenta o mercado e o potencial de arrecadação através da geração de empregos, comércio e serviços”, aponta a GM.

Já no caso March, a proposta teria que ser muito tentadora. O carrinho deixou de ser produzido em 2020, na planta de Resende (RJ). Assim, o esforço para reativar a produção teria que ser equalizado com a projeção de faturamento. Em 2022, a planta fluminense produziu 53.121 unidades, segundo a Anfavea. A capacidade instalada é para 100 mil carros anuais. Ou seja, há espaço para fazer, mas tudo dependerá de como o acordo seria costurado. Questionada, a Nissan apenas se limitou a dizer que não comenta projetos futuros.

Gol de novo?​


Também fomos questionar a Volkswagen. Atualmente ela tem o Polo Track como opção de entrada e que poderia ser o representante da marca na turma do novo carro popular. No entanto, questionamos se o Gol poderia voltar a ser feito. A fabricante preferiu não responder nossos questionamentos.

Volkswagen Polo Track

O Polo Track agora é o carro de entrada da marca e caso o novo popular saia do papel, perderia ainda mais conteúdos (Foto: VW | Divulgação)

Mas a probabilidade é praticamente nula, pois o Track já passou por uma severa dieta para ocupar o lugar do Gol e a Volks injetou dinheiro na planta de Taubaté (SP) para produzir o Polo queixo duro.

O modelo já perdeu muitos conteúdos em relação ao Polo convencional. Além disso, ainda há mais “gordura” para queimar.

Etios reintegrado​

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Toyota Etios ainda é produzido no Brasil, mas apenas para exportação, e também poderia ser o representante da japonesa no segmento do novo carro popular (Foto: Toyota | Divulgação)

Outro modelo que poderia ser adequado para o projeto do carro popular seria o Toyota Etios. O modelo, apesar descontinuado no mercado brasileiro, ainda é produzido na planta Sorocaba (SP) para exportação. Se tiver preço, o consumidor não irá ligar se ele é feio.

Preço do novo carro popular​


Como o projeto do novo carro popular ainda está em fase embrionária. Não se sabe o que o carro terá de conteúdo, qual seria seu regime tributário, fica difícil cravar o preço do pé de boi moderno.

Há quem aposte em valores abaixo dos R$ 60 mil. Que o popular deveria ocupar faixa na casa dos R$ 50 mil. Mas fato é que hoje o modelo mais barato do mercado, o Renault Kwid Zen, parte de R$ 68.190.

O carrinho vem com o básico do básico e pra tirar ainda mais R$ 8 mil de conteúdos teria que ser uma dobradinha de tributos e conteúdos. E como esses carros ficariam?

Kwid (mais) popular​


Se o Kwid Zen é o piso da indústria, ele teria que ficar ainda mais barato para brigar no hipotético novo segmento de populares. Ele perderia vidros elétricos frontais, rádio e ar-condicionado, de imediato.

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Renault Kwid é o carro mais barato do mercado brasileiro, mas teria que abrir mão de conteúdos para ficar abaixo dos R$ 60 mil

Direção elétrica é um ponto complicado, pois faz parte do atual conjunto mecânico. A Renault teria que desenvolver um sistema puramente mecânico para o carrinho.

Outros componentes eletrônicos, como destrava elétrica, travamento central das portas, ajuste de altura do cinto de segurança, assim como limpador e desembaçador do para-brisas traseiro também poderiam ser eliminados.

Na parte estética, calotas e pintura dos para-choques também poderiam entrar na conta. A luz de circulação diurna em LED poderia dar lugar a um conjunto alógeno, já que se tornou obrigatório desde 2021. A receita da dieta seria repetida por demais modelos do mercado, com o básico do básico e nada mais.

Juros, crédito e tributação​


Mas para tudo isso funcionar é preciso que a política de juros seja revista. Conversamos com concessionários que reclamam o custo do financiamento. “Hoje a taxa mensal gira em torno de 2,5% ao mês, não tem quem consiga bancar prestações tão elevadas que vão mais dobrar o preço final”, comenta uma vendedora de uma revenda francesa, de Belo Horizonte.

E quando se fala de carros populares, ter crédito é fundamental. O “preço” do dinheiro é parametrado pela taxa básica de juros, a Selic, determinada pelo Banco Central. Atualmente, a taxa está em 13,5% ao ano. Essa taxa é uma espécie de freio da inflação. Quando os preços disparam, o BC eleva a taxa para tornar o crédito mais caro e consequentemente reduzir o apetite do dragão.

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Credito acessível e nova classificação tributária são essenciais para fazer o carro popular pegar “sem tranco” (Foto: Shutterstock)

Mas o crédito caro afastou o consumidor que depende do financiamento, que é aquele que compra carros populares. Especialistas em economia apontam que a taxa saudável para o mercado como um todo, deveria girar em torno de 8 ou 9% ao ano.

Além do barateamento do crédito, o governo também precisa aprimorar a classificação tributária. Hoje a alíquota do IPI é calculada com base na capacidade volumétrica do motor, que tinham o desempenho como balizador. Hoje isso não se aplica mais, uma vez que automóveis 1.0 turbo equipam modelos de maior valor agregado como SUVs e têm o mesmo peso tributário de um Mobi ou Kwid.

Será que tudo isso vai sair do papel?

Possíveis novos populares​

  • Renault Kwid: Seria a opção mais fácil para se adequar a um futuro projeto de carro popular.
  • Fiat Mobi: Mobi e Kwid já brigam pela base do mercado e aplicar mais uma “capina” no italiano não seria difícil.
  • Citroën C3: O C3 de entrada segue a mesma filosofia dos rivais acima. O modelo já é bastante despojado de conteúdo.
  • VW Polo Track: A Volkswagen ainda tem gordura para tirar do Polo Track.
  • Chevrolet Joy: Remover conteúdos do Onix atual talvez não seja o bastante para chegar num hipotético preço abaixo dos R$ 60 mil. Talvez a solução seria a volta do Joy feito na Colômbia.
  • Toyota Etios: Como ainda é produzido para exportação, poderia facilmente ser ajustado para ser vendido novamente no Brasil.
  • Nissan March: A Nissan tem “espaço” na planta de Resende para reativar o March, mas dependeria de uma conta muito bem fechada para saber se é compensatório brigar no novo segmento de populares.

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