Texto: Marcos Camargo Jr.
A Ford Motor Company está em negociações avançadas com o grupo chinês Geely para o uso de instalações industriais da montadora americana na Europa, em um movimento que reforça a reorganização da indústria automotiva global diante do avanço das fabricantes chinesas e das novas barreiras comerciais impostas pelo bloco europeu. A possível cooperação ocorre em paralelo às tratativas da Ford com a Renault para o desenvolvimento de veículos elétricos mais acessíveis no mercado europeu.
De acordo com reportagem da Reuters, as conversas entre Ford e Geely já se encontram em estágio avançado. Atualmente, a Ford possui fábricas desativadas no Reino Unido e na Alemanha, além de unidades operando com capacidade ociosa em outros países europeus. Procurada, a Geely evitou confirmar um acordo formal. “Temos discussões com muitas empresas o tempo todo sobre vários assuntos. Algumas se materializam e outras não”, afirmou a companhia em nota.
As negociações envolvem a possibilidade de compartilhamento de espaço fabril da Ford para a produção de veículos da Geely destinados ao mercado europeu. A estratégia permitiria à montadora chinesa contornar as tarifas impostas pela União Europeia sobre carros elétricos importados da China, que podem chegar a quase 38%. Ao mesmo tempo, a Ford conseguiria elevar a taxa de utilização de ativos industriais hoje subaproveitados, reduzindo custos fixos em um momento de forte pressão sobre margens.
Além da manufatura, as tratativas incluem uma potencial cooperação tecnológica, com compartilhamento de desenvolvimento em áreas consideradas estratégicas, como sistemas de direção automatizada, conectividade veicular e soluções avançadas de assistência ao condutor (ADAS). Entre as instalações citadas nas discussões está a fábrica da Ford em Valência, na Espanha, que reúne condições para absorver novos volumes de produção.
As conversas entre as empresas vêm ocorrendo há meses e ganharam impulso após encontros entre executivos nos Estados Unidos e uma recente visita de representantes da Ford à China. O movimento evidencia o interesse crescente de montadoras tradicionais em parcerias com grupos chineses, que hoje detêm escala, domínio tecnológico em eletrificação e custos mais competitivos.
Mesmo sem um acordo oficialmente anunciado, a aproximação entre Ford e Geely sinaliza uma mudança relevante no eixo da produção e do desenvolvimento automotivo global. A Ford já havia reconhecido esse novo cenário ao anunciar uma parceria com a Renault para a produção de veículos elétricos de menor custo na Europa — movimento que dialoga com a própria estratégia da montadora francesa, que mantém alianças com a Geely em diferentes mercados, inclusive no Brasil.
A estratégia adotada por Ford e Geely não é isolada. A BYD, maior fabricante mundial de veículos elétricos, iniciou a fase de produção piloto em sua nova fábrica em Szeged, na Hungria, com planos de iniciar a produção em larga escala a partir do segundo trimestre de 2026. Trata-se do primeiro grande complexo industrial da empresa no continente europeu, parte de um plano mais amplo para evitar tarifas e se consolidar localmente.
Outro exemplo é a Chery, que vem acelerando sua expansão na Europa. A empresa já opera uma fábrica em Barcelona, na Espanha, por meio de uma joint venture voltada à produção local dos modelos das marcas Omoda e Jaecoo. Além disso, a Chery anunciou a criação de um centro de pesquisa, desenvolvimento e sede regional em Liverpool, no Reino Unido, voltado à sua divisão de veículos comerciais elétricos, reforçando sua presença fora da China.
O avanço das negociações entre Ford e Geely, somado aos investimentos diretos de BYD e Chery, evidencia como as fabricantes chinesas deixaram de ser apenas exportadoras para se tornarem protagonistas na reconfiguração industrial da Europa.
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