Notícia Renovação de frota: crédito de R$ 30 mil é piada de mau gosto

O Governo Federal deve publicar ainda nesta semana uma Medida Provisória que vai, por fim, criar o programa Renovar, que tem como objetivo fazer a renovação de frota de caminhões antigos, como também implementos. Há mais de 20 anos em discussão, o programa de renovação de frota também vai contemplar ônibus.

Apesar da longa espera por um programa de renovação de frota, o governo mais uma vez mostra que não conhece a realidade dos caminhoneiros autônomos ou que já são pequenos transportadores. O motivo: o ridículo bônus de até R$ 30 mil na “venda” do caminhão ao programa.


De acordo com o Ministério da Economia, a iniciativa é voluntária, ou seja, o caminhoneiro opta por entrar no Renovar ou não, e caso ele queira, deve entregar o caminhão em pontos de desmanche credenciados por órgãos de trânsito e receberá o valor vigente no mercado (limitado aos R$ 30 mil).

Para iniciar o programa, a montadora Iveco venceu uma licitação da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) para auxiliar e criar no piloto do programa.

Desconhecimento sobre os autônomos​


Desde governos passados, é claro o desconhecimento sobre os caminhoneiros e suas reais necessidades e aflições. A Iveco por ter ganho a licitação, pode ofertar seus veículos, o que não tem problema nenhum, mas o crédito é descabido ao ponto de parecer uma piada – e de péssimo gosto.

Por exemplo: o motorista José tem um Mercedes-Benz L1111, um caminhão com PBT de 11 toneladas, e o mesmo deseja trocar por um modelo novo que também tenha a mesma capacidade de carga e que passe na balança com 11 toneladas como faz o seu antigo L1111.

No portfólio da montadora italiana, temos o Tector 11-190, um caminhão para 11 toneladas e um motor de 190 cavalos. Mas qual o valor? De acordo com a tabela FIPE, o valor do Tector 11-190 4×2 em março de 2022 é de R$ 289.589.

Com o crédito de R$ 30 mil , José então fica com uma conta de quase R$ 260 mil.

tector 9 11 toneladas

O Tector 9-190 e o modelo 11-190 (Foto: Érico Piment | Divulgação)

Além do crédito ser extremamente baixo, muitos José por só são donos de caminhões mais velhos por não conseguir trocar e comprar um novo, e até mesmo não conseguem crédito na praça para financiar.

Além disso, ainda temos o problema dos preços dos caminhões, sejam eles seminovos ou novos, o que só mostra que o programa chega errado e em uma hora mais errada ainda.

Em sites de classificados, encontramos o Mercedes-Benz L1111 com preços de R$ 30 mil a R$ 50 mil, então se o José decidir vender seu caminhão e se aposentar ou mudar de profissão, não era melhor ele vender para outro caminhoneiro do que para o programa Renovar?

Autônomo gosta da iniciativa, mas reclama do crédito​

cristiano bueno

Bueno é caminhoneiro autônomo e vê boa iniciativa no programa, mas também acha o crédito baixo (Foto: arquivo pessoal)

Conversamos com o caminhoneiro autônomo e youtuber Cristiano Bueno, que tem um caminhão 3/4.

“Olhando os preços de caminhões no mercado, não existe caminhão de 30 mil, e os que têm são usados, o que não faz sentido. A iniciativa é boa, porém o governo precisa abrir mão da carga tributária nos caminhões novos, já que isso pode representar até 50% do valor, ou seja, você compra um caminhão e o governo leva outro em carta tributária, se fizesse isso, teríamos uma renovação de frota rápida e eficiente.

Cristiano Bueno ainda lembra do programa Pro Caminhoneiro, que facilitava a compra de caminhões novos e concedia juros bem baixos. Ele destaca que conheceu caminhoneiros autônomos que conseguiram comprar modelos novos na ocasião, mas a maior parte foi adquirida por gente de fora do setor, como profissionais liberais.

Assim, a demanda ficou mais alta do que a oferta e, além disso, os preços dos fretes caíram. “Por não serem do setor fizeram a “prostituição” do frete, ou seja, aceitavam fretes baixos e o mercado em si jogou o valor do frete lá embaixo, o que fez muitos quebrarem. E depois tivemos uma crise por volta de 2015, 2016 o que só piorou a situação”, explica Bueno.

Ao lembrar do Procaminhoneiro Bueno ainda reforça que o programa de renovação não irá ajudar o caminhoneiro autônomo, que é dono da maior parte dos veículos antigos em circulação, e que deveria ser o foco do governo.

Caminhões usados ainda são caros​


Caminhões são basicamente veículos comerciais, ou seja, usados para ganhar o seu dinheiro, por isso eles não têm uma depreciação tão grande. Em um outro exemplo, pesquisamos o preço do Scania 112H, modelo ofertado pela marca nos anos 80. O valor do modelo encontrado começa em R$ 58 mil e chega aos R$ 100 mil, isso para um caminhão com quase 40 anos de uso

Esse pequeno outro exemplo só mostra como o crédito de R$ 30 mil não é válido e não deve ajudar em nada o caminhoneiro autônomo.

A idade da frota de caminhões no Brasil é bem avançada. De acordo com pesquisa do Sindipeças (Sindicato das empresas de autopeças) em 2020 do total de 2.05 milhões de caminhões em circulação no Brasil, 17% tinham até cinco anos, 56% entre 6 a 15 anos e 27% acima de 16 anos.

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