Notícia Kia abrirá fábrica no Brasil se dívida bilionária for perdoada pelo governo, diz chefe da marca no Brasil

A Kia do Brasil pode passar por mudanças importantes, incluindo a construção de uma fábrica no país. A informação é do próprio responsável pela marca no país atualmente, José Luiz Gandini, em entrevista ao AutoPapo. Gandini esclareceu, à reportagem, informações que foram divulgadas primeiramente pelo jornalista João Anacleto.

Segundo o empresário, a matriz da Kia, na Coreia do Sul, estaria negociando o perdão de dívidas bilionárias junto ao governo federal, contraídas ao final do século XX, no incidente da fábrica da Asia Motors (veja abaixo). Caso haja o perdão, o empresário afirma que entregará o comando aos asiáticos e se tornará apenas concessionário.

“É uma negociação que não tem prazo, não tem previsão. Enquanto isso não acontece, tudo se mantém como está e eu sigo no comando da importação”, frisou José Luiz Gandini à reportagem.

Fábrica da Hyundai em Piracicaba
Há planos de se erguer fábrica da Kia ao lado da planta da Hyundai, em Piracicaba (SP) (Foto: Hyundai | Divulgação)

Por mais que Kia e Hyundai sejam marcas do mesmo grupo, ambas operam de maneira independente no país, muito por conta de questões legais. A Hyundai, por exemplo, é comandada direto pela matriz sul-coreana, desenvolve produtos exclusivos para o mercado nacional e conta com sua fábrica em Piracicaba (SP).

A Kia, por sua vez, se limita a importar modelos produzidos no exterior, normalmente de maior valor, em operação de menor escala liderada, de modo oficial e exclusivo, pelo Grupo Gandini desde 1992. É a maior importadora sem fábrica e de atuação contínua no Brasil.

Com operação de menor escala e foco no tíquete-médio ao invés do volume, a estratégia da Kia acaba limitando as vendas da marca: no mundo inteiro, em 2025, seus emplacamentos corresponderam a cerca de 75% do volume da Hyundai; no Brasil, a Kia vendeu apenas 3% da irmã maior.

KIA Carnival 2027 híbrido 2
Ao invés de focar em carros caros, como a Carnival, Kia poderá investir em modelos baratos e de alto volume no Brasil (Foto: Kia | Divulgação)

Como é tendência em todos os grupos automotivos do mundo hoje, a estratégia natural seria unificar as operações e aproveitar a estrutura da Hyundai no país para expandir fortemente a Kia nas ruas brasileiras. Para tanto, também seria necessário uma fábrica. José Luiz Gandini confirmou que soube de tal intenção dos sul-coreanos, mas não tem muitos detalhes. “A gente ouviu falar que essa fábrica da Kia seria do lado da fábrica da Hyundai, [em Piracicaba]”, contou.

O problema da Asia Motors


Nos anos 1990, a Asia Motors do Brasil recebeu redução de aproximadamente 50% dos impostos de importação, condicionada à construção de uma fábrica na Bahia. A montadora chegou a importar modelos como Towner e Topic, mas a unidade industrial nunca foi concluída.

Por conta da isenção sem a contrapartida prevista, o governo passou a cobrar os tributos economizados e as penalidades da Asia. Quando o débito foi inscrito em dívida ativa, em 2003, o principal era de aproximadamente US$ 217 milhões; depois de juros e multas, passou por cerca de R$ 1,6 bilhão, R$ 2 bilhões e chegou, segundo o STJ em 2023, a aproximadamente R$ 6 bilhões.

asia towner coach
Asia importou veículos como a Towner ao Brasil com isenção fiscal condicionada à construção de uma fábrica no país. A fábrica nunca veio e o governo até hoje cobra os impostos não-pagos de volta (Foto: Asia | Divulgação)

A Asia Motors pertencia ao grupo Kia e foi incorporada pela Kia na Coreia. A Fazenda Nacional sustenta que a Kia é sucessora e tentou redirecionar a execução fiscal contra ela. Em 2023, o STJ não encerrou a cobrança: devolveu o processo à primeira instância para que a responsabilidade da Kia fosse discutida pelo procedimento correto.

Assim, embora a dívida formal seja originária da Asia Motors do Brasil, existe risco de cobrança contra a matriz coreana. Isso desencoraja a Kia a abrir subsidiária, investir diretamente e colocar patrimônio industrial no Brasil, que poderia ficar exposto à execução.

Por isso, a operação continua nas mãos do Grupo Gandini, e a solução desse passivo é tratada como pré-condição prática para a matriz assumir o negócio e construir uma fábrica.

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