Quando se fala em “carro poluidor”, a imagem que vem à cabeça costuma ser a de uma picape a diesel soltando fumaça preta. Os dados oficiais, porém, contam outra história. O AutoPapo realizou um levantamento a partir da nova tabela do Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular do Inmetro — a mesma que embasa a etiqueta de eficiência energética dos veículos — e chegou aos 15 modelos que mais emitem poluentes locais pelo escapamento. No topo aparecem carros populares flex, não os utilitários a diesel.
Consideramos três poluentes medidos no escapamento: NMOG, NOx e CO. Somamos os valores de cada versão e ordenamos do maior para o menor, usando a configuração mais poluente de cada modelo. Ficaram de fora os elétricos (emissão zero no escapamento) e os números de gases de efeito estufa, tratados mais adiante.
Características dos motores a diesel fazem com que picapes emitam menos poluentes no somatório do que modelos flex, por exemplo (Foto: Ford | Divulgação)
A surpresa do ranking tem explicação na química da combustão. A soma é puxada quase inteiramente pelo monóxido de carbono (CO), e o CO é justamente o poluente em que o diesel se sai bem. O motor do ciclo Diesel trabalha com mistura pobre, isto é, com excesso de ar na câmara de combustão. Sobrando oxigênio, quase todo o carbono do combustível chega a se oxidar até CO₂, e muito pouco para no meio do caminho como CO. Segundo a Cetesb, o monóxido de carbono é resultado da queima incompleta — exatamente o que o diesel, com seu ar abundante, tende a evitar.
Já os motores a gasolina e flex operam perto da mistura estequiométrica e, em situações como partida a frio, aceleração e enriquecimento de mistura, queimam com menos ar disponível. Aí a combustão fica incompleta e o CO dispara — daí os números altos dos populares flex desta lista. É também por isso que o catalisador de três vias, que arrasa o CO nos carros a gasolina, não funciona no diesel: sem oxigênio sobrando no escape do flex, ele oxida o CO; no diesel, o excesso de ar inviabiliza esse mesmo processo.
Isso não absolve o diesel — ele apenas é sujo de outro jeito. Onde a gasolina peca no CO, o diesel peca no NOx e, sobretudo, no material particulado (a fuligem), poluentes que esta soma específica não captura ou capta de forma limitada. Tanto que, na própria tabela do Inmetro, as picapes a diesel exibem valores elevados de NMOG+NOx, mas CO baixíssimo. Um ranking montado por material particulado ou por NOx isolado teria outros protagonistas — provavelmente os utilitários a diesel que o senso comum já esperaria ali.
NMOG (gases orgânicos não metano) reúne compostos orgânicos voláteis que sobram da combustão incompleta. NOx são os óxidos de nitrogênio, formados sob alta temperatura no motor. Juntos, NMOG e NOx são os principais precursores do ozônio troposférico — aquele ozônio ruim, ao nível do solo, que irrita as vias respiratórias, agrava asma e bronquite e prejudica a vegetação. O CO (monóxido de carbono) é um gás incolor e inodoro que, inalado, reduz a oxigenação do sangue; em ambientes fechados, pode ser letal.
A medição não é feita em rua, e sim em laboratório, com o carro sobre um dinamômetro de chassi que simula um ciclo padronizado de cidade e estrada (normas ABNT NBR 6.601 e 16.567). Usam-se combustíveis de referência — gasolina com 22% de etanol e diesel com 7% de biodiesel —, diferentes do que sai na bomba. Modelos flex são ensaiados tanto com gasolina quanto com etanol.
Os tetos individuais valem desde a fase Proconve L7 e seguem na L8 (em vigor desde 2025). Para carros de passeio, o limite é de 80 mg/km de NMOG+NOx somados e 1.000 mg/km de CO; para comerciais leves, 140 mg/km e 320 mg/km, respectivamente. Todos os modelos da lista estão dentro da lei — “mais poluidor” não significa irregular. A novidade da L8 é cobrar a meta de NMOG+NOx pela média da frota de cada montadora, não mais carro a carro, e apertar o índice para 50 mg/km.
A tabela também traz o CO₂ fóssil, principal gás de efeito estufa. Ele foi desconsiderado aqui por estar em outra ordem de grandeza — é medido em gramas por quilômetro, contra miligramas dos poluentes locais — e por responder a um problema diferente: o clima global, não a qualidade do ar da sua rua. Misturar os dois numa só conta distorceria o ranking.
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A metodologia
Consideramos três poluentes medidos no escapamento: NMOG, NOx e CO. Somamos os valores de cada versão e ordenamos do maior para o menor, usando a configuração mais poluente de cada modelo. Ficaram de fora os elétricos (emissão zero no escapamento) e os números de gases de efeito estufa, tratados mais adiante.
Por que as picapes a diesel não lideram
Características dos motores a diesel fazem com que picapes emitam menos poluentes no somatório do que modelos flex, por exemplo (Foto: Ford | Divulgação)
A surpresa do ranking tem explicação na química da combustão. A soma é puxada quase inteiramente pelo monóxido de carbono (CO), e o CO é justamente o poluente em que o diesel se sai bem. O motor do ciclo Diesel trabalha com mistura pobre, isto é, com excesso de ar na câmara de combustão. Sobrando oxigênio, quase todo o carbono do combustível chega a se oxidar até CO₂, e muito pouco para no meio do caminho como CO. Segundo a Cetesb, o monóxido de carbono é resultado da queima incompleta — exatamente o que o diesel, com seu ar abundante, tende a evitar.
Já os motores a gasolina e flex operam perto da mistura estequiométrica e, em situações como partida a frio, aceleração e enriquecimento de mistura, queimam com menos ar disponível. Aí a combustão fica incompleta e o CO dispara — daí os números altos dos populares flex desta lista. É também por isso que o catalisador de três vias, que arrasa o CO nos carros a gasolina, não funciona no diesel: sem oxigênio sobrando no escape do flex, ele oxida o CO; no diesel, o excesso de ar inviabiliza esse mesmo processo.
Isso não absolve o diesel — ele apenas é sujo de outro jeito. Onde a gasolina peca no CO, o diesel peca no NOx e, sobretudo, no material particulado (a fuligem), poluentes que esta soma específica não captura ou capta de forma limitada. Tanto que, na própria tabela do Inmetro, as picapes a diesel exibem valores elevados de NMOG+NOx, mas CO baixíssimo. Um ranking montado por material particulado ou por NOx isolado teria outros protagonistas — provavelmente os utilitários a diesel que o senso comum já esperaria ali.
O que são esses poluentes
NMOG (gases orgânicos não metano) reúne compostos orgânicos voláteis que sobram da combustão incompleta. NOx são os óxidos de nitrogênio, formados sob alta temperatura no motor. Juntos, NMOG e NOx são os principais precursores do ozônio troposférico — aquele ozônio ruim, ao nível do solo, que irrita as vias respiratórias, agrava asma e bronquite e prejudica a vegetação. O CO (monóxido de carbono) é um gás incolor e inodoro que, inalado, reduz a oxigenação do sangue; em ambientes fechados, pode ser letal.
Como o Inmetro afere
A medição não é feita em rua, e sim em laboratório, com o carro sobre um dinamômetro de chassi que simula um ciclo padronizado de cidade e estrada (normas ABNT NBR 6.601 e 16.567). Usam-se combustíveis de referência — gasolina com 22% de etanol e diesel com 7% de biodiesel —, diferentes do que sai na bomba. Modelos flex são ensaiados tanto com gasolina quanto com etanol.
Os limites legais
Os tetos individuais valem desde a fase Proconve L7 e seguem na L8 (em vigor desde 2025). Para carros de passeio, o limite é de 80 mg/km de NMOG+NOx somados e 1.000 mg/km de CO; para comerciais leves, 140 mg/km e 320 mg/km, respectivamente. Todos os modelos da lista estão dentro da lei — “mais poluidor” não significa irregular. A novidade da L8 é cobrar a meta de NMOG+NOx pela média da frota de cada montadora, não mais carro a carro, e apertar o índice para 50 mg/km.
E os gases de efeito estufa?
A tabela também traz o CO₂ fóssil, principal gás de efeito estufa. Ele foi desconsiderado aqui por estar em outra ordem de grandeza — é medido em gramas por quilômetro, contra miligramas dos poluentes locais — e por responder a um problema diferente: o clima global, não a qualidade do ar da sua rua. Misturar os dois numa só conta distorceria o ranking.
Os 15 carros mais poluidores do Brasil
| Ranking | Modelo | Motorização | Combustível | Soma de poluentes (mg/km) |
|---|---|---|---|---|
| 1º | Chevrolet Spin | 1.8 aspirado | Flex | 851 |
| 2º | Renault Duster | 1.6 aspirado | Flex | 700 |
| 3º | Renault Kangoo | 1.6 aspirado | Flex | 649 |
| 4º | Ford Mustang GT | 5.0 V8 aspirado | Gasolina | 626 |
| 5º | Renault Oroch | 1.6 aspirado | Flex | 608 |
| 6º | Citroën C3 You | 1.0 turbo | Flex | 598 |
| 7º | Ford Mustang Dark Horse | 5.0 V8 aspirado | Gasolina | 581 |
| 8º | Fiat Strada Volcano | 1.3 aspirado | Flex | 525 |
| 9º | Citroën C3 1.0 | 1.0 aspirado | Flex | 494 |
| 10º | Fiat Cronos 1.0 | 1.0 aspirado | Flex | 484 |
| 11º | Citroën Basalt 1.0 | 1.0 aspirado | Flex | 481 |
| 12º | Citroën Aircross 1.0 Turbo | 1.0 turbo | Flex | 460 |
| 13º | Peugeot 208 1.0 | 1.0 aspirado | Flex | 456 |
| 14º | Fiat Pulse Drive | 1.3 aspirado | Flex | 435 |
| 15º | Fiat Fiorino Endurance | 1.3 aspirado | Flex | 435 |
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