Notícia Trump ganhou um Boeing 747 de presente de outro país. Seria um cavalo de tróia?

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez uma troca incomum de avião presidencial durante sua viagem à Europa nessa semana, deixando para trás o novo avião presidencial dado de presente pelo Catar, que havia sido apresentado semanas antes como seu novo Air Force One. Na quarta-feira (8), Trump embarcou no modelo antigo — um 747-200B em serviço desde 1990, comprado pelos próprios EUA — para parte do trajeto de volta, e a troca reacendeu dúvidas sobre a segurança do jato recebido de graça.

Segundo a imprensa americana, a substituição veio logo após Trump ordenar, ainda em Ancara, novos ataques ao Irã, país vizinho à Turquia, onde o presidente visitava. O avião antigo, designado VC-25A, carrega sistemas de defesa que o presente do Catar, reformado às pressas, pode não ter por completo. Questionado, o presidente negou que a mudança tivesse relação com risco e afirmou que a nova aeronave seria levada a uma base no Reino Unido para ser exibida a militares.

De jato real a “avião-ponte”

President Donald J Trump tours the new Air Force One at Joint Base Andrews Maryland on Friday June 19 2026 (Official White House Photo by Daniel Torok)
Boeing 747-8 pertencia à frota dos governantes do Catar e foi modificada antes de transportar Trump (Foto: Casa Branca | Daniel Torok)

A nova aeronave foi fabricada como uma versão de série do Boeing 747-8 com interior de jatinho, sendo entregue à Qatar Amiri Flight, a frota VIP da família real do Catar, em 2012. Em 2023, o Jumbo saiu de operação. Em fevereiro de 2025, já no segundo mandato de Trump, o emir catariano enviou o avião aos EUA para que o presidente o conhecesse. O que começou como possível venda ou aluguel virou doação: o Pentágono aceitou o jato em maio de 2025, e a empresa de defesa L3Harris ficou responsável pela conversão. Estima-se que o 747-8 mais suas adaptações possam custar cerca de US$ 5 bilhões (R$ 25 bilhões)

Foram cerca de 400 funcionários em turnos ininterruptos por dez meses para entregar o avião antes de 4 de julho, segundo a L3Harris. A aeronave, apelidada de VC-25B Bridge (“ponte”, em inglês), foi revelada em 19 de junho de 2026 na Base Conjunta Andrews e ganhou pintura em vermelho, branco, azul-escuro e dourado, escolhida por Trump, em ruptura com o tradicional azul-claro usado desde os anos 1960.

O VC-25B Bridge é baseado no 747-8 Intercontinental, o maior avião comercial já feito pela Boeing. Tem cerca de 76,3 m de comprimento, aproximadamente 5,5 m mais longo que o atual, e 68,4 m de envergadura. O peso máximo de decolagem chega a cerca de 448 toneladas, um salto de aproximadamente 70 toneladas sobre o VC-25A.

O avião antigo é um 747-200B com quase quatro décadas de uso. São dois exemplares (caudas 28000 e 29000), com mais de 70 assentos e cerca de 383 km de fiação, o dobro de um 747 comum, toda blindada contra pulso eletromagnético. A hora de voo é cara e as peças de reposição estão escassas, o que motivou a busca por um substituto enquanto a Boeing atrasa os dois VC-25B definitivos.

Por que o avião velho ainda inspira mais confiança

Air Force One over Mt Rushmore
‘Velho’ Air Force One é mais confiável por ter sido inteiramente desenvolvido e cuido pelos própris americano (Foto: Força Aérea dos EUA | Divulgação)

O VC-25A é, na prática, um Boeing 747 travestido de fortaleza voadora, com um arsenal passivo de sobrevivência. Na cauda, por exemplo, o receptor de alerta AN/AAR-54(V) detecta o rastro ultravioleta da fumaça de um míssil recém-lançado; o sistema de contramedidas infravermelhas direcionadas dispara pulsos de energia para “cegar” a cabeça-guia de mísseis de calor; e o jammer AN/ALQ-204 mascara a assinatura térmica dos motores. Há ainda os clássicos chaff (fitas metálicas que confundem radares) e flares (sinalizadores quentes que atraem mísseis de calor para longe da fuselagem) para protegê-lo de diversos ataques.

A camada mais extrema é a blindagem: fiação e estrutura são protegidas contra o pulso eletromagnético de uma explosão nuclear, o que permitiria ao avião seguir operando como posto de comando mesmo em guerra atômica. Boa parte desses recursos é secreta, mas o suficiente já veio a público para se saber que o VC-25A funciona como um centro de comando blindado, não apenas como transporte.

O problema do jato catariano está aí: segundo especialistas ouvidos pela imprensa americana, a conversão acelerada teria deixado de fora parte do pacote habitual de proteção. A própria Força Aérea admitiu ter feito concessões em capacidades menos usadas para cumprir o prazo, embora afirme não ter aberto mão de segurança, comunicações e defesa essenciais.

O que o Catar quer em troca

President Donald J Trump tours the new Air Force One at Joint Base Andrews Maryland on Friday June 19 2026 (Official White House Photo by Daniel Torok)
Analistas suspeitam das reais intenções do Catar por trás do presente dado a Donald Trump (Foto: Casa Branca | Daniel Torok)

Por trás do presente, analistas enxergam estratégia. Para críticos e especialistas em ética, o jato configuraria possível violação da Cláusula de Emolumentos da Constituição americana, que proíbe autoridades de aceitar presentes de governos estrangeiros sem aval do Congresso. O temor é que uma dádiva desse porte crie expectativa de reciprocidade em política externa, negócios de armas ou tarifas.

Segundo esses críticos, o gesto se encaixaria em um esforço mais amplo de Doha para ampliar sua influência nos EUA. Trump rebate: disse que “só um tolo” recusaria “o avião mais luxuoso do mundo” e afirmou que a aeronave pertence ao Departamento de Defesa. Ele pretende transferi-la à sua futura biblioteca presidencial ao fim do mandato, o que, para os opositores, reforça a leitura de troféu pessoal.

Enquanto isso, os dois VC-25B de nova geração, encomendados à Boeing por US$ 3,9 bilhões (cerca de R$ 20,1 bilhões) em 2018, seguem atrasados. A entrega não é esperada antes de 2028, o que pode deixar Trump sem um Air Force One comprado pelos EUA até o fim de seu governo.

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