Notícia Sem oficina, caminhão chinês ainda patina no mercado brasileiro

As montadoras chinesas avançam em ritmo acelerado no mercado brasileiro de automóveis, mas ainda enfrentam barreiras importantes quando o assunto são caminhões pesados. Embora as marcas asiáticas já representam quase 17% das vendas no segmento de carros de passeio no Brasil em 2026. Por outro lado, a presença no transporte de carga contínua limitada por um fator considerado decisivo no setor: o pós-venda. É por isso que o caminhão chinês não engrena por aqui.


Em 2016, as fabricantes chinesas respondiam por apenas 0,5% do mercado nacional de veículos leves. Dez anos depois, alcançaram 12% de participação e seguiram crescendo rapidamente. O movimento transformou o cenário da indústria automotiva brasileira e abriu espaço para novas marcas no país.

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Pós-venda é a pedra no sapato do caminhão chinês


No segmento de caminhões, porém, a realidade é diferente. O transporte rodoviário depende de uma rede ampla de assistência técnica e disponibilidade de peças, já que o veículo é tratado como ferramenta de trabalho, o que se tornou um desafio para o caminhão chinês. Um veículo parado por falta de manutenção significa prejuízo imediato para transportadoras e motoristas autônomos.

Tentativas anteriores de marcas chinesas, como a Sinotruk e a Shacman, encontraram dificuldades justamente pela limitação da estrutura de pós-venda. Diferentemente dos automóveis de passeio, os caminhões exigem cobertura nacional de oficinas e distribuição eficiente de peças, algo que as fabricantes europeias construíram ao longo de décadas no Brasil.

Hoje, montadoras tradicionais lucram cada vez mais com serviços de manutenção, conectividade e contratos de suporte do que apenas com a venda do veículo. O caminhão deixou de ser atendido em oficinas independentes para voltar às concessionárias, movimento que foi bem aceito tanto por grandes frotistas quanto por autônomos.

O desafio logístico ainda pesa contra as chinesas. Um caminhão vendido em São Paulo precisa de suporte também em regiões remotas, como o interior do Mato Grosso. Sem uma rede de atendimento ampla, a operação do cliente fica comprometida.

Enquanto os carros chineses seguem desembarcando no Brasil, fabricantes europeias de caminhões seguem o caminho oposto e adaptam produtos para enfrentar a concorrência no mercado asiático. A Scania lançou na China a linha Next Era, derivada da plataforma NTG, com configuração simplificada para competir em preço. Já a Mercedes-Benz apresentou o Actros C, desenvolvido especificamente para aquele mercado.

Mercedes-Benz Actros C caminhão chinês

Mercedes-Benz Actros C foi desenvolvido para o mercado chinês, com ajustes para ser mais competitivo por lá (Foto: Mercedes-Benz | Divulgação)

As chinesas, por sua vez, avançam de forma gradual no Brasil. A Foton iniciou operações com caminhões leves, entre 3,5 e 17 toneladas, além de modelos elétricos urbanos. A estratégia busca consolidar a marca em segmentos menores antes de entrar nos pesados.

Outras fabricantes também ampliam presença em nichos específicos. A XCMG e a Sany apostam em caminhões elétricos e movidos a gás natural liquefeito. Já a JAC Motors separou sua operação de caminhões da divisão de automóveis e oferece modelos de até 25 toneladas.

O mercado de caminhões pesados representa cerca de metade das vendas do setor no Brasil e é considerado o segmento mais rentável do transporte rodoviário. Marcas como Sitrak, Shacman e a própria Foton podem ganhar espaço com preços mais competitivos, beneficiando transportadoras e caminhoneiros autônomos.

Além do preço, a eletrificação também desponta como diferencial. Segundo dados do International Council on Clean Transportation, no primeiro semestre de 2025 os caminhões com motores alternativos representaram 48% das vendas na China, enquanto os modelos a diesel ficaram com 52%. A expectativa para 2026 é que veículos elétricos e movidos a gás ultrapassem os movidos a diesel no país asiático.

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